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Homem que sufocou Cassule está morto

daswdO então chefe do departamento de Protecção a Individualidades, afecto ao Comando de Protecção a Individualidades Protocolares (CPIP), Lourenço Sebastião, revelou que o seu colega que sufocou o activista cívico Isaías Cassule com sacos de sarrapilheira e de plástico (semelhante ao usado nas lavandarias para cobrir roupa) morreu de malária cerebral no Hospital Josina Machel, sete meses depois do sucedido. Esta revelação foi feita nesta Quarta-feira, 26, em declaração à instância do juiz-presidente da 6ª Secção de Crimes Comuns do Tribunal Provincial de Luanda, Carlos Baltazar, encarregado de julgar os sete efectivos da Polícia Nacional e dos Serviços de Informação e Segurança do Estado (SINSE) acusados de assassinarem os activistas cívicos Isaías Cassule e Alves Kamulingue. Disse que se apercebeu da morte do oficial Pedro Antunes por intermédio de um livro de condolências com a sua fotografia exposto na CPIP e que o seu departamento apoiou a realização das exéquias. O meritíssimo o questionou se sabia se o seu colega partilhou o sucedido com alguém antes de sucumbir, respondeu negativamente. Contou que depois de sequestrarem a vítima, defronte ao fontanário que está junto a escola Angola e Cuba, no Cazenga, dirigiram-se ao município de Cacuaco enquanto aguardavam pela orientação do chefe de operações da delegação provincial de Luanda do SINSE António “Loy”, que ordenou tal missão. Segundo o co-arguido, o malogrado agente Fragoso decidiu vendar o rosto do activista com estes dois objectos que se encontravam no interior da sua viatura, cuja marca não soube precisar, para se livrar do barulho que fazia em protesto a forma da delegação provincial de Luanda do SINSE António “Loy”, que ordenou tal missão. Segundo o co-arguido, o malogrado agente Fragoso decidiu vendar o rosto do activista com estes dois objectos que se encontravam no interior da sua viatura, cuja marca não soube precisar, para se livrar do barulho que fazia em protesto a forma um instante com o argumento de que pretendia mudar-se para a carroçaria porque se sentia incomodado em partilhar o assento com um cadáver, mas, curiosamente, levou-o para o mesmo local. O juiz o questionou, de forma irónica para desanuviar o clima de tensão que se havia instalado na sala de audiência, se o silêncio que reinava no carro não era superior ao que o agente Fragoso pretendia, respondeu positivamente.

Desaparecimento do corpo

O arguido prosseguiu contando que ao passarem pela ponte do rio Dande, situada antes da cidade de Caxito, o seu companheiro surpreendeu-lhe ao bater com muita força no tejadilho, de forma repetida, ordenando que parasse. E, em menos de dois minutos, procedeu do mesmo modo mas ordenando-lhe que arrancasse imediatamente. O juiz-presidente Carlos Baltazar perguntou-lhe por quê razão o agente Fragoso procedeu de tal maneira e respondeu que só mais tarde é que veio a saber que terá sido para jogar o corpo ao rio que ele atribuiu o nome de rio Bengo. Insatisfeito com a resposta, o meritíssimo indagou se não o reparou sequer pelo retrovisor para averiguar o que estava a fazer e obteve o não como resposta. “O estado de choque em que encontrava até a presença de uma mosca poderia assustar-me”, disse. Já em Luanda, regressou ao município do Cazenga, com o propósito de deixar o seu companheiro em casa. Depois disso, voltou a contactar o ex-chefe de operações do SINSE, mas este se recusou a falar sobre o sucedido ao telefone. Orientou-o a regressar a casa e a ficar descansado que no dia seguinte teria a oportunidade de falarem sobre o assunto. “O Isaías Cassule está morto?” Questionou o juiz Carlos Baltazar e o réu, respondeu prontamente que não sabia se estava “vivo, morto ou ressuscitado”. O juiz interveio dizendo que se está vivo é porque não morreu por ser impossível o morto ressuscitar. “Digo isso por não saber se ele foi mesmo jogado ao rio, se morreu ou está vivo tendo em conta que as buscas realizadas neste local (a mando da Procuradoria Geral da República) e os exames de ADN feito aos fragmentos aí encontrados não comprovam isso”, justificou e obteve um parecer negativo.

Falsa operação de Estado

Lourenço Sebastião disse que dois dias depois do sucedido teve um encontro com Paulo Mota e António “Loy”, director-adjunto do SINSE de Luanda e o chefe de operações desta instituição respectivamente, na Praça da Família, no interior de uma viatura. O arguido relatou que depois de ter contado detalhadamente toda a operação e a forma como raptaram Isaías Cassule, o chefe de operações recomendou que não falasse com ninguém (incluindo a PGR e os Tribunais) por ser uma operação de Estado e que várias instituições concorriam para o mesmo objectivo.

Confessou que ao ser informado sobre isso, concluiu que havia mais uma vez prestado um serviço relevante à Pátria. Carlos Baltazar o indagou porque fez tal afirmação, respondeu que só mais tarde é que veio a se aperceber que não era uma missão de Estado. De acordo com o depoente, António Loy o orientou que não assistisse televisão, não ouvisse rádio e nem sequer lesse jornal nos meses a seguir por existir, na altura, a possibilidade de a morte de Cassule ser reportada por um destes meios de comunicação social e poder vir a abalá-lo psicologicamente. Respondeu que não seria necessário por já se encontrar melhor psicologicamente. Por vê-lo chegar a pé ao local do encontro, Paulo Mota o questionou porque percorreu a distância entre a unidade da CPIP e a Praça da Família deste modo, disse que não tinha coragem de conduzir o seu veículo por ter transportado um morto.

“O camarada Mota disse-me que o senhor director Vieira Lopes havia de agraciar-me com uma viatura, mas não recebi até hoje. Na ocasião, o Loy questionou-o por quê razão me estava atribuir tal meio se ele não tinha e foi informado que isto dependia da conveniência do director”, detalhou. Acrescentou de seguida que mesmo estando preso, cobra todos os dias o veículo ao co-réu António Vieira Lopes. Surpreso, o juiz solicitou ao ex-delegado provincial do SINSE que se levantasse para confirmar se esta informação era verídica ou não e respondeu positivamente. Disse que esta cobrança é feita num tom irónico e que ele se limita a recomendá-lo que a faça à pessoa que prometeu, no caso, Paulo Mota. Ao recordar este episódio, perdeu o controlo e classificou a operação de mal arquitectada, pois acabou por manchar o nome do Chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, levar que o camarada Bento Bento fosse investigado e que Sebastião Martins fosse exonerado do cargo de Director do SINSE. De forma pedagógica, o juiz apelou-o que se mantivesse calmo pelo facto de, embora o tribunal conceda a possibilidade de as pessoas falarem sobre tudo o que os apoquenta, é necessário não extrapolar. Cerca de um ano depois, segundo conta, foi notificado a comparecer na Procuradoria-Geral da República para falar sobre este assunto. Convicto de que a operação era de Estado, o arguido disse que mentiu reiteradas vezes ao digno Procurador- Geral da República, João Maria de Sousa, na presença do mais alto responsável da Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) e alguns investigadores durante três dias. No terceiro dia, João Maria de Sousa ordenou que fosse feita uma acareação entre ele e a pessoa que o acusou de ser o autor da morte de Isaías Cassule. “Estava na sala onde seria realizada a acareação quando fui surpreendido com a presença do Loy. Meritíssimo fiquei muito em baixo e pensei: então a pessoa que me mandou guardar aquilo em segredo de Estado foi a primeira a ir queixar?”, Recordou, deixando toda a sala em silêncio.

Supostos assassinos ordenados pelo SINSE

O arguido Lourenço Sebastião disse que recebeu a ordem do então chefe de operações dos Serviços Secretos para reunir uma equipa de operativos para participarem numa operação que tinha como propósito deter os activistas cívicos Isaías Cassule e Alves Kamulingue, no dia 27 de Maio de 2012, por telefone.

Só que não aceitou por se encontrar fora do escritório e a realizar trabalho de campo, mas o seu interlocutor não compreendeu a recusa e insistiu bastante. “Foi Deus quem me orientou a proceder de tal forma, senão quem estaria aqui sentado no lugar destes polícias seria eu e a minha equipa”, desabafou, olhando para os arguidos que o ladeavam.

Face a insistência, prontificou-se em mobilizar o seu pessoal para deter os activistas no dia seguinte, caso António Loy assim o quisesse e só recebeu esta confirmação, 24 horas depois. Foi assim que no dia 29 do mesmo mês, mobilizou o seu colega que respondia pelo município do Cazenga, Pedro Antunes, e mais três operativos, identificados apenas por agentes 020, 030, 060, arrolados nos autos como declarantes. Indagado por Carlos Baltazar se Benilson Pereira participou em tal operação, respondeu que foi ele quem marcou o encontro com a vítima e o indicou para que fosse raptado. “O senhor Benilson era agente do vosso departamento?”, questionou o meritíssimo e o arguido descreve-o como sendo seu colaborador infiltrado no seio dos manifestantes e que só depois do caso ter ido parar à PGR é que se apercebeu que o mesmo também prestava o mesmo serviço ao SINSE. Na esperança de melhor elucidar os presentes, declarou que o agente secreto Benilson foi infiltrado no seio dos movimentos de jovens que pretendiam realizar manifestações, numa altura em que ocorriam os históricos acontecimentos da Primavera Árabe, com o propósito de destituir o Presidente da República, destruir o país e desestabilizar o povo. Disse que fê-lo em obediência ao princípio segundo o qual a sua instituição deve prestar todo o auxílio necessário aos órgãos de Segurança e Informação do Estado na execução das suas tarefas.

Questionado por que razão não denunciou a morte de Isaías Cassule às autoridades, respondeu que julgou que o director adjunto do SINSE comunicaria o sucedido aos órgãos superiores, tendo em atenção que eles estavam numa posição superior à sua. Confrontado com a informação de que no auto de pronúncia consta que ele não era efectivo da CPIP, assegurou que o seu advogado tem documentos que comprovam o contrário. Explicou que está arrolado neste caso por se encontrar a dirigir interinamente o departamento encarregado de proteger algumas individualidades e instituições políticas que beneficiam de imunidades, como o Comité Provincial do MPLA de Luanda.

Fonte:O País/Jambakiaxi

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This entry was posted on 1 de Dezembro de 2014 by in Politica, Sociedade and tagged , , .

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