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Depois da dor, promessas de dias melhores

klyuMais de 70 mortos. Dezenas de família desalojadas. A contabilidade da destruição das chuvas não pára de subir. Os sobreviventes vão ter terrenos para refazer a vida, mas longe das zonas de cheias.

Os desalojados das enchentes do Lobito vão receber terrenos e material para construírem as suas próprias casas, dentro de quatro meses. A garantia foi dada pelo governador de Benguela, Isaac dos Anjos. Até lá ficam a viver em casa de familiares e em mais de 100 tendas, com capacidade para acolher 12 pessoas cada, instaladas num vasto terreno no bairro Alto Niva (Catumbela) e noutra área de oito hectares no Bango-Bango, à saída do Lobito.

A intensa chuva, acompanhada de vento forte, que caiu no Lobito na noite de quarta-feira, provocou a morte de mais de 70 pessoas e desalojou centenas de famílias. A tempestade, que voltou a semear dor e luto no Lobito 40 anos depois, ocorreu em cinco horas, entre as 18h e as 23h de quarta-feira. Os bairros mais prejudicados foram Alto Acongo, Alto Esperança, 4 de Abril, Vista Alegre, Calumba, Canata, Vicungo, Santa Cruz. Grande parte das habitações foram construídas em linhas de risco, ou seja, no ‘epicentro’ da calamidade.

Algumas localidades ficaram isoladas temporariamente do resto da cidade, devido ao estado das vias de acesso que acumularam lamas e buracos. Devido às fortes chuvas, no Novo Bairro, a água chegou a atingir os quatro metros de altura, que obrigou à fuga dos habitantes para zonas mais seguras. A fúria da natureza causou também o desabamento de 119 casas, a inundação de 10 escolas, o que afectou directamente 870 alunos, a destruição de duas igrejas, bem como deixou meia centena de casas sem tecto. As pedras nas montanhas, soterrando pessoas e arrasando habitações críticas que se encontravam em linhas de passagem de água.

A vala do bairro da Luz, por exemplo, onde boa parte dos nadadores-salvadores resgatou corpos das vítimas nos primeiros dias a seguir à tempestade, transbordou nas imediações da estrada nacional EN-100 e a água arrastou carros, árvores e tudo o que encontrou pelo caminho, deixando ainda ruas intransitáveis.

Passados cinco dias, ainda havia fortes indícios de corpos desaparecidos no entulho arrastado pelas enxurradas, principalmente nas valas. As equipas de busca, com nadadores-salvadores, coordenadas pela Comissão Provincial de Protecção Civil, conjuntamente com peritos da Marinha de Guerra, continuaram no terreno à procura de localizar corpos soterrados.

O administrador do Lobito chegou a avisar que o resgate iria requerer “paciência”, por causa do entulho de lixo e lama que deixaram obstruídas as valas. Amaro Ricardo previa que o número de vítimas mortais pudesse ir aumentando, porque havia ainda muitos desaparecidos e soterrados no grande lamaçal. A comissão de assistência às vítimas tratou com urgência de fazer o enterro das vítimas ainda na sexta-feira. A morgue do Hospital Regional do Lobito foi insuficiente, dada à anormal quantidade de cadáveres. Como alternativa, foi solicitada a intervenção de Benguela e Catumbela.

A zona alta foi a mais afectada. Aqui, as populações construíram casas nas proximidades de ravinas e sobre valas de drenagem, ignorando os avisos das autoridades.

Quando a água baixou de volume, equipas técnicas, auxiliadas por empresas voluntárias, procediam à limpeza das valas de linhas de água, a par da eliminação da lama e lixo acumulados nas escolas, postos médicos, igrejas e noutras instituições.

À saída de uma reunião de emergência, o secretário de Estado para o Serviço de Protecção Civil e Bombeiros.

Eugénio Laborinho alertava que um trabalho mais “profundo” de infra-estruturas ainda estava para ser feito para “reverter a tendência negativa de construir em áreas de risco, sobretudo nas encostas de montanhas tendentes a desastres naturais”.

Eugénio Laborinho desafiou a população a acatar, sem hesitação, as medidas educativas de sensibilização que a Comissão Nacional de Protecção tem vindo a transmitir nos últimos anos, como a não depositar lixo nas valas de drenagem.

Zonas de perigo

A construção em áreas como as que foram mais atingidas pelas chuvas, é o que mais preocupa os especialistas em urbanismo. Para o arquitecto Felisberto Amado, essas calamidades só serão prevenidas quando as administrações municipais forem regidas por um instrumento de gestão do território, que possa abarcar o plano director municipal de drenagem que contém todas as áreas de risco sujeitas a inundações ou todas as linhas de água e bacias hidrográficas.

Felisberto Amaro entende que a tragédia “era previsível e poderia ser evitada” se houvesse um instrumento de gestão com cartas identificando áreas de risco na zona alta e baixa, junto ao mar e às salinas. Por isso, defende que as administrações municipais elaborem o documento de gestão do território. “O que as administrações fazem ainda é muito pouco no sentido da prevenção de calamidades”, critica.

Já em 1972, chuvas idênticas provocaram a morte a mais de 70 pessoas e, na altura, Lobito não tinha a densidade população actual. Felisberto Amaro não culpa a população que constrói em zona de risco, porque “necessita de habitação”. Mas defende que sejam criadas condições nos terrenos que serão entregues às famílias sinistradas, sugerindo que tenham estrada asfaltada, água canalizada, electricidade, com rede de recolha de lixo e vala de drenagem.

O advogado Branco Lima é que não tem dúvidas que a administração municipal “tem culpa” pelas construções ilegais em zonas de risco. “Muitas das pessoas vivem em terrenos vendidos pelos próprios fiscais da administração”, acusa, lembrando que a construção é “um acto público e notório, feito à luz do dia, e que podia ser evitada”.

Dor que não acaba

Francisco Miguel é um dos sobreviventes que convivem com as marcas deixadas pela tragédia. Perdeu a mulher e quatro filhos e garante, ao NG, nunca ter sentido “tanta tristeza” na vida. “Escapei à morte, mas a minha família foi levada pela chuva. Tudo aconteceu muito rápido”, frisou, visivelmente abalado, enquanto espreitava a morgue do Hospital do Lobito Incredulidade e dor são alguns dos sentimentos expressados por Manuela Juliana, que vive no bairro Liro, um dos mais afectados pela chuva. “A nossa casa não foi poupada e todos os móveis ficaram destruídos e nada mais se aproveita”, lamenta. Já a jovem Teresa Clara relata a dor de ter perdido a casa onde morava sozinha. “Com medo do vento, procurei refúgio em casa da minha amiga”, conta, acrescentando que deixou a porta aberta e a corrente arrasou todos os haveres. Vive agora da ajuda e solidariedade de terceiros, pois perdeu toda a roupa. A mãe da amiga colocou-lhe um quarto à disposição no quintal onde deverá ficar até que se restabeleça.

Daniel Mendes é um dos dois sobreviventes de uma família, na qual morreram seis pessoas. “É muita dor que o tempo não apaga”, afirma, incapaz de conter as lágrimas que lhe correm pelo rosto.

Campanha intensa

Uma ampla campanha de solidariedade foi desencadeada conjuntamente pela Rádio Benguela e pelo grupo Unidos de Ombaka. Denominada ‘SOS Benguela Solidária’, a iniciativa arrecadou, nos primeiros dias, mais de 120 toneladas de bens de primeira necessidade. Helende Rasgado, do projecto filantrópico, considera que a adesão dos benguelenses à campanha “ultrapassou todas as expectativas”. Foram recebidos bens alimentares não perecíveis, vestuário e calçado e algum lote de material de construção.

A Associação Acácias Rubras também se associou à onda de solidariedade, tendo mobilizado diversas entidades. A empresa Ango-Real ofereceu 200 toneladas de bens diversos.

Em Luanda, foram criados grupos

O jornal Nova Gazeta também está a promover uma campanha de recolha de donativos para ajudar o Lobito denominada ‘NG ao lado do Lobito’.

A TPA, a Hadja Models, a Associação de Jovens Solidários, a LS Republicano, a organização Santos Bikuku, partidos políticos, entre outros, já se deslocaram ao Lobito para fazer a entrega de bens de primeira necessidade.

Lobito visto lá fora

As cheias no Lobito foram também destaques na imprensa internacional. Na Inglaterra, a tragédia foi noticiada pelo Dailymail e BBC, no Brasil pelo G1, em Singapura pelo Channelnewsasia, na Índia, pelo Timesofindia, no scannesnewsnigeria, na Nigéria, no canal Arabnews, no Kénia pelo Uchaguzi, na Alemanha, pela rádio Deutsche Welle. Em Portugal, foi destaque no Diário de Notícias, RTP, Expresso, A Bola, Visão, Público, entre outros portais e jornais.

Fonte:Angola 24 horas/Jambakiaxi

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This entry was posted on 23 de Março de 2015 by in Opinião Publica, Politica, Sociedade and tagged , , , .

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