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«A Unita do Dr. Savimbi matava e não dava explicações a ninguém!»

fewwNa primeira parte da extensa conversa com o Semanário Angolense (SA), Sousa Jamba disse ter percebido que o general Altino Bock era um homem moribundo quando foi entrevistado por Luís Costa da Voz da América.

O escritor e jornalista diz que logo de imediato tratou de enviar um e-mail a Jonas Savimbi, intercedendo para que Bock fosse poupado. Sabe-se que a demanda de Sousa Jamba não foi bem sucedida e Bock acabou mesmo na guilhotina.

Mas o líder da Unita terá ao menos respondido ao e-mail?
Sousa Jamba (SJ) – Não, não respondeu. Mas eu pedi para que aquele homem fosse poupado, porque esse tipo de mortes não tinha nada a ver com a Unita, enquanto partido. Na verdade, como é que a Unita poderia explicar esse tipo de mortes? Como é que vamos explicar as mortes do Chindondo, Sangumba e de várias outras figuras que desapareceram?

SA – E qual foi a explicação interna dada pela Unita para esse elevado número de mortes?

SJ – Nunca foi dada nenhuma explicação. E este é o grande problema da Unita. Esta é a verdade e uma verdade muito vergonhosa! A Unita do Dr. Savimbi matava e não dava explicações a ninguém! Fazia coisas monstruosas dessas e depois dali era esquecer. Nós, os da diáspora, debatíamos permanentemente este problema. E havia uma corrente interna que tentava compreender essas mortes com a justificação de que numa guerra há gente que morre e gente que sobrevive. Mas isso nunca me convenceu.

SA – Dentro da Unita, Savimbi era o responsável exclusivo por essas mortes?

SJ – Claro que também houve outras pessoas com responsabilidades nisso. Mas quem conheceu bem o Dr. Savimbi sabe que nada acontecia sem o seu aval.

SA – Qual foi o papel do general Gato nisto? Ele é geralmente associado à morte de Tito Chingunji por ter sido supostamente quem denunciou a Savimbi um «affaire» que Tito terá tido com Ana Isabel, em Paris…

SJ – Falemos do general Gato, mas em relação ao papel que desempenhou quando nós estávamos a denunciar a iminente morte de Tito Chingunji. Quando começamos a fazer a campanha para proteger o Tito, a direcção da Unita apareceu em Londres e nos reunimos num hotel. A delegação da direcção integrava o falecido Alicerces Mango, o general Gato, o Tony da Costa Fernandes. Do outro lado da mesa estavam eu e o Dinho Chingunji. Neste encontro, o sr. Tony da Costa Fernandes disse-nos que Tito estava bem e que a nossa campanha não era justificada.

Isso mesmo foi repetido pelo general Gato, para quem Tito Chingunji também estava muito bem e que andávamos a fazer uma campanha totalmente injustificada. Agora, eu não sei o que ele sabia. Porém, pouco depois desse encontro, um líder da Unita, cujo nome não posso revelar porque a conversa foi apenas a dois, me confirmou que Tito Chingunji estava morto.

SA – Então admite que quando Gato e outros vos deram garantias de que Tito estava bem, eles já sabiam que Tito já estava morto?

SJ – Eu só posso dizer que não sei o que eles sabiam. Posso dizer também que entre esse encontro e a confirmação da morte de Tito, que me foi feita por um dirigente da Unita, não se passou muito tempo.

SA – Tanto quanto vai o teu conhecimento, por que razão Savimbi eliminou Tito Chingunji?

SJ – Razões, razões nunca ninguém deu. Mas o que posso dizer é que havia no interior da Unita uma certa corrente de contestação às práticas e os excessos do Dr. Savimbi. Tito Chingunji era tido como a figura central dessa contestação. Tito era uma pessoa moderada e bastante equilibrada.

Mas o que surpreende em tudo isso é que o Dr. Savimbi dizia ter uma grande admiração por Tito. Num certo dia disse mesmo que iria propô-lo para o cargo de vice-presidente da Unita. O Tito era elogiado como um dos jovens mais promissores da Unita. Era admirado pelos Estados Unidos. Era uma pessoa que gostava do debate, muito culta, que viajava com malas de livros. Era um poliglota: falava fluentemente o inglês, o português e o francês. Todas essas qualidades, a que juntava uma formidável cordialidade, erigiram-no, se calhar involuntariamente, para um patamar muito alto. Creio que começou mesmo a ser visto em alguns círculos como o substituto natural do Dr. Savimbi, aquele que seria capaz de tirar o partido daquelas práticas abomináveis de que temos vindo a falar. Todos sabemos que em África não é muito bom ser apresentado como alternativa ao chefe.

Nas nossas democracias, enquanto o soba está vivo não pode haver alternativa e o Tito, pelo menos entre certos jovens, estava a emergir como uma alternativa. Tito desfrutava de uma enorme simpatia entre aqueles jovens que, não querendo trair a Unita, não concordavam, porém, com as práticas do Dr. Savimbi. Este Dr. Savimbi, que era um homem genial, um brilhante estratega militar, a partir de certo momento tornou-se absolutamente irracional. Insultava as pessoas, humilhava-as publicamente, crucificava os quadros, até mesmo aqueles que estavam mais próximos dele. É com essas práticas dele que nós discordávamos absolutamente. É verdade que ele era o líder, mas não era a Unita.

SA – Quando fala do grupo da diáspora que contestava a liderança de Savimbi está a falar de quem?

SJ – Além de mim próprio, estou a falar do George Chicoty, do Dinho Chingunji, do Lindo Candjungo e outros.

SA – Entre os contestatários de Savimbi havia alguém da velha guarda?

SJ – Não, apenas nós, os que éramos considerados miúdos.

SA – O Chivukuvuku fazia parte desse grupo contestatário?

SJ – Não, não fazia parte. Nunca soube porquê, mas se calhar é porque ele estava em Portugal e nós estávamos em Londres. De qualquer forma, ele é de uma geração um pouco mais velha da nossa. Mas também não era muito fácil contestar o Dr. Savimbi. A Unita tinha a Brinde e outros instrumentos de segurança que vigiavam os passos de toda a gente. Para contestar o Dr. Savimbi era preciso ter muita coragem e assumir o risco de sofrer as consequências disso. E isso é coisa que nem toda a gente tinha coragem de fazer.

SA – Aceita o desafio de caracterizar algumas figuras da Unita?

SJ – Ya, vamos a isso. 

SA – Comecemos por Jorge Valentim…

SJ – No coments!

SA – O sr. Nzau Puna?

SJ – Nzau Puna era uma figura muito alegre. Quando estive nas matas vi-o como uma pessoa muito acolhedora. Mas foi sobretudo uma pessoa que serviu com muita lealdade o Dr. Savimbi de quem era muito amigo.

SA – …Amigo e, se calhar, cúmplice. Quando ele fugiu da Unita, Savimbi responsabilizou-o, pessoalmente, pelas mortes de Tito, Wilson e seus familiares…

SJ – Eu não posso afirmar taxativamente que ele matou o Tito. De resto, na Unita, como é que se poderia entender que um cabindense matasse membros da elite ovimbundu? Ninguém aceitaria isso.

SA – E quanto à Lukamba Gato?

SJ – Lukamba Gato é uma figura em quem tem de ser depositado crédito. Liderou a Unita até ao fim. Houve uma certa incoerência sua quando disse que não iria candidatar-se e candidatou-se. Mas revelou ser um grande democrata quando, em Junho do ano passado, no congresso em Viana, aceitou a vitória de Isaías Samakuva. Enfim, ele é uma figura de peso, que trabalhou profundamente para a instalação da democracia na Unita, numa altura em que o partido estava bastante dividido.

SA – Não acha que a actual liderança da Unita se afastou um bocadinho das bases, desde que se instalou em Luanda? 

SJ – Eu já reflecti sobre isso. Há realmente pessoas que se queixam de terem sido abandonadas pela Unita. Trata-se de uma situação muito difícil para o senhor Samakuva, porque a Unita é uma organização de grande dimensão. Mas é preciso primeiro consolidar a unidade do partido e manter intactas as franjas tradicionais. É necessário angariar apoios e reforçar a posição do partido no plano internacional. São tarefas muito exigentes para o partido. Mas sei que uma vez que a Unita esteja unida, uma das coisas que Samakuva fará é mesmo voltar às bases. Aliás, ele já está a fazer coisas positivas. Está a dar importância às mulheres no processo de reactivação das bases. Colocou, por exemplo, Aninhas Sachiambo como representante do partido no Huambo. É uma senhora de destaque que foi por muito tempo presidente da Lima.

SA – Mas continua a haver imensos sectores, no interior da Unita e não só, bastante desencantados com o seu desempenho enquanto oposição… 

SJ – Há militantes que dizem que perderam vinte anos nas matas, e que agora nada têm. Mas o que não se diz é que a Unita já não é nem pode ser o Estado-providência que foi no passado.

SA – Não acha que esses militantes têm legitimidade para fazer esse tipo de critica?

SJ – Eles têm legitimidade para isso, mas a direcção da Unita deve explicar a esses militantes que não há fundos.

SA – Mas há dirigentes a enriquecerem apesar de tudo…

SJ – Tenho ouvido estórias dessas. Entristece-me bastante ouvir que o mano fulano tal se tornou milionário. Mas é exactamente por isso que temos de ter muito cuidado. Contudo, também há indivíduos da Unita que chegaram a Luanda e fizeram negócios que estão a render, com o seu próprio dinheiro e não do partido. São pessoas que aqui chegaram e não se limitaram a cruzar os braços à espera do partido.

Muitos deles estudam e estão a ser muito bem sucedidos graças aos seus próprios esforços. Dizer que estão a enriquecer porque dispõem de dinheiro do partido não é verdade. Francamente, penso que o sr. Samakuva não aceitaria indivíduos que enriqueçam aproveitando-se da sua posição na Unita. Agora o que a Unita tem que fazer é incentivar os seus quadros a adaptarem-se à vida da cidade, incentivando-os à livre iniciativa. É o que eu faria se fosse dirigente do partido. Mas já sei que a Unita nunca me daria um posto…

SA – E porquê que a Unita nunca lhe daria um cargo? 

SJ – Presumo que eu não seria uma pessoa ideal. Mas, a haver um posto para mim na Unita, eu gostaria de ser um secretário que ajudasse a reinstalar as pessoas nas áreas de origem e nas áreas rurais. E identificar exactamente quais são as necessidades existentes nas aldeias.

Lembro-me que o sr. Samakuva antes de ser eleito, falava das pequenas empresas, da agricultura e de vários outros programas para ajudar o povo do interior, que são afinal de contas a «raison d’être» [razão de ser] da Unita. Acho que, com o andar do tempo, essa é uma coisa que será resolvida.

Fonte:Semanário Angolense/Jambakiaxi

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This entry was posted on 2 de Outubro de 2015 by in Politica and tagged , , , , , , , , , .

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