JambaKiaxi

O mundo noticioso sem preço

MEL GAMBOA INFERIORIZA E HUMILHA MATIAS DAMASIO

dfwevA LIXEIRA COMEÇA COM UM PEDAÇO DE PAPEL!* (FIM)
Por Flora Telo

Ativista Feminista

Doutoranda em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Género e Feminismo

Continuação

4º Matias Damásio – Vim Devolver

O nosso top desigualdade encerra com a música de um dos mais famosos cantores da nova geração angolana. Não obstante reconheça a sua capacidade excepcional de compositor, muitas de suas músicas são extremamente ofensivas as mulheres, eu diria mesmo, machistas e sexistas, e como exemplo básico cito a “mulata enganadora” que, a semelhança de outras músicas suas com idêntico pendor, fazem bastante sucesso em Angola e em outras partes do mundo. Em seguida, o trecho da letra que será comentado.

“Vim devolver a mão da vossa filha/já não dá pra continuar, eu não mereço. /Miúda prendada, bonita/ humm já não dá pra continuar mama/ desculpas peço Vim trazer de volta/ eu tentei mas eu não consegui/ ai desculpa/ miúda prendada, carinhosa já não da pra continuar mama/ desculpas peço/ ela cozinha muito bem eu que não como em casa ela me espera toda noite/ e eu só chego a madrugada/ ela me trata muito bem eu que me zango à toa […]”

Mulheres nasceram para sofrer. Eu poderia ficar somente por esta primeira frase e deixar à vossa consideração, as possíveis interpretações da mesma, mas infelizmente minha ansiedade aguçada me obriga a tecer alguns comentários, ainda que breves sobre o assunto. A miúda prendada todas/os nós já sabemos o que é, por isso vou direto ao assunto, as mulheres angolanas são obrigadas a se sacrificar diariamente para que o relacionamento funcione, uma espécie de karma, por terem nascido fêmea.

Ele foi devolver a produto que adquiriu no mercado, sim, isso mesmo, e como toda mercadoria, sem vontade, sem vida, sem voz e cega, precisa ser conduzida, neste caso, foi para a casa dos pais. Bom, em nenhum momento da música ele refere qual era a vontade dela, mas isso também não interessa, afinal, ele é o “homem da casa”. A ideia presente nesta mensagem também vai no sentido de que mulheres precisam ser sempre tuteladas, senão pelos esposos sê-lo-ão pelo pai e pela mãe. Por isso só os pais (homem) podem levar a noiva ao altar. É a celebre cerimônia de passagem de “pasta” em que o poder paternal se desloca ao esposo ou companheiro, conforme o caso. Entretanto, ela jamais deverá ser deixada solta, sem a presença de um macho, por isso ele vai devolvê-la. Mas me permitam questionar, pessoa adulta pode ser devolvida? A primeira vez que ouvi a música fiquei intrigada, confesso que fui consultar um dicionário de Língua Portuguesa, para ter certeza que eu não estava a ficar paranóica, porque na minha cabeça, somente coisas e outros objetos podiam ser devolvidos. E realmente foi o que constatei, devolve-se dinheiro, anel, casa, carro, até mesmo orgulho, mas não pessoas, o que dizer mulheres!

Com sua ânsia de fazer uma boa ação o esposo zeloso (imagina se não fosse) trata a sua companheira como uma menor incapaz.

Essa é a realidade que muitas mulheres angolanas vivenciam. Elas sofrem ao aturar um marido que apenas lembra-se dela na mesa e na cama e mesmo sendo boas nisso, ainda são arrastadas para fora de casa.

Por fim, a música espelha uma realidade que felizmente tende a mudar drasticamente nos últimos tempos em Angola: a de que as mulheres não têm patrimônio próprio, fora do casamento. Só por isso, elas são arrastadas da casa do marido para a dos pais ou, por exemplo, nos casos em que ela engravida solteira ainda sob o seu teto, da casa destes para a do “engravidador”.

Hoje muitas mulheres se casam e já têm sua própria residência ou terreno onde pretendem construir a sua moradia, situação que deixa muitos homens enfurecidos. Nestes casos, elas estão mais confiantes em seus relacionamentos não aceitando nem tolerando abusos corriqueiros, quando é o homem o dono da casa ou o único provedor de bens materiais no lar. Já é comum ver homens que se mudam para a casa da esposa após o casamento, invertendo assim esse modelo tradicional, onde o risco de ser obrigada a sair de casa recai sobre a mulher. E mais, se ela mora na casa construída ou comprada pelo marido e ainda assim, ela tem a sua casa a parte, quando situações destas acontecem, o que ela vai fazer é pegar em suas coisas e ir para a sua própria casa, deixando os seus pais longe do problema.

Outrossim, é com alguma tristeza que ainda vejo na nossa sociedade a falta de consciência, dolosa ou negligente, dos efeitos que as letras destas músicas causam, no âmbito das relações de género que se pretendem cada vez mais saudáveis e igualitárias. Os propósitos de desenvolvimento nacional passam necessariamente por mudanças mentais, culturais e sociais no sentido de que todas as pessoas possam dar o seu contributo. Enquanto permanecerem relações de manifesta injustiça contras as mulheres, o país não alcançará o tão almejado desenvolvimento. Neste âmbito, os músicos têm um papel preponderante na mudança de mentalidades, pois são ouvidos em todo o país e as suas mensagens atingem todo o tipo de público. As músicas são violentas e atentam contra a dignidade e os direitos de todas as mulheres angolanas.

É fundamental combater todas as ações e omissões, não só a partir da educação familiar ou escolar, mas principalmente do dia-a-dia, da mídia, das letras musicais, dos anúncios publicitários, deve haver da parte do Estado uma fiscalização acérrima em prol da eliminação de todas as situações e expressões sexistas, patriarcais e endocêntricas visando uma sociedade mais igualitária, onde mulheres e homens gozem dos mesmos direitos e deveres. Silvya Tamale (2004) fala na criação de novas identidades masculinas emancipatórias.

As atividades de todo o tipo tidas como detalhes ou sem grande importância, mas que têm um impacto negativo a médio e longo prazo devem ser eliminadas, pois, é a partir delas que se constroem os grandes estereótipos, conceitos e preconceitos também. A ideia de que a lixeira começa com um pedaço de papel, é justamente para chamar atenção que, estas letras que parecem inofensivas, em rigor, acabam por reforçar uma mentalidade sexista e patriarcal, que influencia diretamente na forma como mulheres e homens serão vistos e tratados na sociedade bem como nas violências psicológicas, físicas sexuais de que a mulher é vitima a maior parte das vezes.

Devemos considerar seriamente que pequenas ações fazem muita diferença para o bem ou para o mal, conforme o caminho escolhido. A violência inicia com um ato verbal que pode terminar em morte. Pensemos nisso, não só enquanto mulheres, mas principalmente como seres humanos!

Finalmente, para elucidar os mais leigos e curiosos também, é fundamental definir alguns conceitos que referi ao longo do texto, e que são de extrema importância para pensarmos as relações de género principalmente em Angola.

Os conceitos de sexismo e androcentrismo são apresentados por Amparo Moreno Sarda (1986) a partir da leitura de outras autoras. Assim, Sexismo é o mecanismo pelo qual se concede privilégios a um sexo em detrimento de outro. A pessoa que usa este privilégio é “sexista”. Ao passo que, Androcentrismo é a concessão de privilégios ao ponto de vista do homem.

Segundo o Dicionário de Significados on line, Misoginia é a repulsa, desprezo ou ódio contra as mulheres. Esta forma de aversão mórbida e patológica ao sexo feminino está diretamente relacionada com a violência que é praticada contra a mulher. Um indivíduo que pratica a misoginia é considerado “misógino”.

De acordo com o Dicionário Crítico do Feminismo (2009) Patriarcado designa uma formação social em que os homens detêm o poder, ou ainda, mais simplesmente, o poder é dos homens. Ele é, assim, quase sinônimo de “dominação masculina” ou de opressão das mulheres.

* Todas as músicas referidas podem ser encontradas na internet.

Fonte:Facebook Mel Gamboa/Jambakiaxi

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This entry was posted on 29 de Outubro de 2015 by in Politica, Sociedade and tagged , , , , , , , , , , , , , , .

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